Em agosto de 1883, Dom Bosco, como é mais conhecido, um sacerdote católico italiano, sonhou que fazia uma viagem à América do Sul – continente que jamais visitou. No sonho , ele passou por várias terras entre a Colômbia e o sul da Argentina , vislumbrando povos e riquezas. Ao chegar à região entre os paralelos 15º e 20º , viu um local especial, onde nas palavras de um anjo que o acompanhava em sua visão, apareceria ‘’a terra prometida’’ e que seria ‘’uma riqueza inconcebível’’.

Setenta e sete anos depois do sonho, era inaugurada no Planalto Central brasileiro a cidade de Brasília, exatamente dentro do intervalo de coordenadas geográficas mencionado na visão de Dom Bosco e emoldurada pelo Lago Paranoá.

A vinculação com o sonho do santo existiu desde o começo da construção da capital, tanto que a primeira obra de alvenaria a ser erguida foi a Ermida Dom Bosco, uma pequena capela em forma piramidal, projetada por Oscar Niemeyer e localizada às margens do Lago Paranoá. Mais tarde foi feito padroeiro de Brasília ao lado de Nossa Senhora Aparecida.

A propósito, em 1956, Oscar Niemeyer foi convidado pelo novo presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek, para projetar os prédios públicos da nova capital do Brasil, que seria construída no centro do país.

Brasília enfim foi inaugurada. Para seus defensores, a nova capital representava um projeto de integração nacional e de redistribuição das atividades produtivas, concentradas em grande parte no litoral do país. Seus críticos, porém, afirmavam que a distância isolaria as decisões políticas da maior parte da população brasileira e não permitiria o desenvolvimento da região. A esperança e a desconfiança estamparam as páginas dos principais jornais do país no dia 21 de abril de 1960, quando Brasília foi inaugurada e assumiu o posto de capital federal.

Passados todos esses anos, esses dois sentimentos ainda dizem muito sobre o que a maioria dos brasileiros sente em relação à cidade idealizada por Juscelino Kubitscheck e construída no Planalto Central pelas mãos de gente de todo o país. Esperança para quem chega em busca de oportunidades ou deposita nela a fé de que dias melhores virão. Desconfiança por quem associa a cidade à corrupção.

Naquela época, a capital era o “sonho acalentado”, na visão de seus apoiadores; “o pandemônio”, na voz dos opositores. Brasília nascia filha da esperança e da polêmica nas páginas dos jornais, parentesco do qual, para o bem ou para o mal, nunca se livrou nestes seus 57 anos de existência.

A transferência da capital federal do Rio para o Planalto Central ganhou as manchetes dos principais veículos de comunicação do país como o início de uma nova era da República. “Brasília amanhece”, “Brasil, capital Brasília”, “Brasília, do papel ao concreto” eram apenas alguns dos títulos de primeira página.

Paulo Mendes da Rocha afirmou em entrevista à rede alemã Deutsche Welle que tirar o título de capital do Rio de Janeiro foi erro político muito forte. No entanto, ressaltou que “isso não tem nada que ver com a obra do Niemeyer, que é altamente criativa”.

O comentário surgiu após o arquiteto laureado com o Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza 2016 ser questionado sobre o que faria se um dia tivesse a possibilidade de reconstruir Brasília. Em sua resposta, foi enfático: “Eu não teria feito Brasília”.

Estando esses dias por Brasília onde residimos por quase 30 anos, percebemos que ela vive uma das piores fases de descrença com a política. Em qualquer roda de conversa de amigos, haverá alguém para dizer que não confia em seus gestores e representantes escolhidos nas urnas. Motivos não faltam. Em nível nacional, a Operação Lava Jato descortinou um esquema de corrupção que não para de incluir nomes na lista de suspeitos.

No Distrito Federal, a Operação Drácon investiga troca de favores, com suposto pagamento de propinas, em uma das áreas mais sensíveis da cidade: a saúde pública. Quem na verdade poderá salvar Brasília? O bom senso de uma nova geração? Ou não tem salvação?

Seguindo uma tendência mundial de renovação da classe política, existe uma geração de jovens na capital que se coloca como alternativa e fora da polarização de partidos que estão comprometidos com a corrupção local e nacional.

A nova geração da política quer ter uma identidade própria. Fala com desenvoltura sobre parcerias com a iniciativa privada, crise econômica, empreendedorismo e diz procurar resultados. No entanto, ainda precisa descobrir uma fórmula que chegue próximo do eleitor sem desconfiança. Mesmo familiarizados com os problemas da capital, os jovens não têm expressão política.

“Estamos em um processo tardio de renovação. O desgaste dos tradicionais partidos da cidade obrigou a uma mudança dos quadros. Agora, o novo perfil estará vinculado a lideranças de setores”, afirmou o cientista político Gabriel Amaral.

A mudança tardia apontada pelo especialista é confirmada pelos registros do Tribunal Regional Eleitoral no DF. Nas eleições de 2014, os candidatos mais jovens tiveram um desempenho tímido. Entre os 979 postulantes a uma vaga para deputado distrital, por exemplo, 213 tinham idade entre 20 e 39 anos. Dos que foram eleitos, nenhum estava na faixa etária dos 20 aos 29. Os quatro mais novos tinham mais de 34.

Gabriel Amaral avalia que dois fatores influenciarão a entrada de nomes novos em cargos públicos. “O fim do financiamento privado nas campanhas e a quantidade de políticos pulverizados em mais partidos serão fatores determinantes. Esses jovens não serão puxadores de votos, mas, se focarem nas zonas específicas, por meio do coeficiente do partido, poderão entrar”, analisou o especialista. João Paulo Peixoto, também cientista político, vê dificuldades em encontrar um novo nome que não esteja ligado à atual classe que está no poder.

MOZART BALDEZ
Advogado
Presidente do SAMA-SINDICATO DOS ADVOGADOS DO ESTADO DO MARANHÃO

Tâmara Silva

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